Apesar do aumento expressivo nos preços, levantamento revela que a renda líquida dos condutores não acompanha o ritmo, reacendendo debates sobre transparência, algoritmos e regulação no setor
As corridas por aplicativo ficaram, em média, 56,08% mais caras para os passageiros em 2025, de acordo com dados do IBGE. Mas quem trabalha dirigindo não comemora. O repasse desse aumento ao motorista está longe de ser proporcional, segundo relatos e estudos que escancaram um descompasso estrutural entre tarifa cobrada e remuneração final.
Enquanto o consumidor sente no bolso a elevação do custo, condutores enfrentam jornadas exaustivas e arcam com uma série de despesas que reduzem consideravelmente seus ganhos líquidos. O cenário reacende discussões antigas sobre transparência das plataformas, uso de algoritmos e necessidade de regulamentação.
Renda líquida varia por cidade e esforço
Um estudo do GigU, citado no material, revela como a rentabilidade muda de acordo com a localização e carga horária. Em São Paulo, um motorista que trabalha 60 horas por semana lucra, em média, R$ 4.252,24 mensais, já descontados custos com combustível, manutenção e tributos.
No Rio de Janeiro, o mesmo cálculo resulta em R$ 3.304,93 para uma jornada de 54 horas semanais. Em Belo Horizonte, o lucro líquido fica em R$ 3.554,58, também para 54 horas de trabalho.
“A jornada é exigente, mas a autonomia e a rentabilidade, que superam algumas ocupações tradicionais, ainda são grandes atrativos”, afirma Luiz Gustavo Neves, CEO do GigU.
O dado revela que, embora haja ganhos acima da média em algumas capitais, isso vem acompanhado de um esforço considerável e sem garantias. Além disso, o resultado final está sujeito a flutuações no preço dos combustíveis, manutenção do veículo e alterações nos sistemas de comissionamento das plataformas.
Algoritmo invisível e remuneração instável
A assimetria entre preço e pagamento ao motorista tem sido tema de estudos internacionais. Uma pesquisa da Universidade de Oxford, baseada em 1,5 milhão de corridas da Uber no Reino Unido, apontou queda nos rendimentos médios dos condutores após mudanças de algoritmo em 2023.
Já a Columbia Business School identificou aumento no percentual retido pelas plataformas ao longo dos últimos três anos. Essa retenção reduz o valor efetivo transferido ao motorista, mesmo quando o passageiro paga mais caro pela corrida.
Essas mudanças ocorrem, em sua maioria, sem comunicação prévia ou clara para os trabalhadores. É um processo guiado por modelos algorítmicos de precificação dinâmica, cujo funcionamento interno é opaco — dificultando a previsibilidade de receita e a compreensão dos critérios que determinam os valores pagos.
Congresso debate teto para comissão das plataformas
Diante dessa disparidade, o Projeto de Lei Complementar 152/2025 ganhou espaço no Congresso. A proposta visa estabelecer um limite de 30% para a comissão retida pelas plataformas em cada corrida, além de criar mecanismos para tornar a renda dos motoristas mais previsível.
A medida tem apoio de associações de motoristas e sindicatos, mas encontra resistência nas empresas do setor. As plataformas argumentam que a limitação da comissão pode comprometer a lógica da precificação dinâmica — e, consequentemente, afetar a oferta do serviço em horários e regiões de alta demanda.
O debate promete se intensificar, especialmente em um cenário onde os custos operacionais sobem, o mercado cresce e os condutores continuam em busca de condições mais justas.
Setor segue em expansão, mas com desafios crescentes
Apesar das tensões, o mercado de transporte por aplicativo segue em expansão. A demanda por corridas aumentou em várias capitais, impulsionada pela retomada da mobilidade urbana após os efeitos mais severos da pandemia e pela dificuldade de acesso ao transporte público de qualidade.
Ao mesmo tempo, a elevação expressiva dos preços impõe um dilema: como equilibrar sustentabilidade financeira para os condutores e acessibilidade para os usuários?
Para especialistas, a resposta passa pela regulação. “Não se trata apenas de definir teto para comissões, mas de criar um ambiente mais transparente, onde motoristas saibam quanto ganham, por que ganham e o que podem esperar de cada corrida”, afirma um analista do setor consultado pela reportagem.
O desafio é desenhar regras que garantam remuneração digna aos trabalhadores sem inviabilizar o modelo de negócios das empresas — que também enfrentam altos custos operacionais e investem em tecnologia para manter a competitividade.
Conclusão: entre algoritmos e rentabilidade, o motorista na corda bamba
O aumento de mais de 56% nas tarifas em 2025 colocou o setor sob holofotes. Enquanto o passageiro sente o peso no bolso, o motorista, em muitos casos, não vê o dinheiro. O descompasso entre o que se cobra e o que se paga reacende a urgência de discutir modelos de remuneração mais claros, previsíveis e justos.
Com o avanço de projetos de lei e a pressão por mais regulação, o futuro das plataformas de mobilidade no Brasil pode passar por mudanças significativas. E o equilíbrio entre tecnologia, mercado e justiça social será determinante para o modelo prosperar de forma sustentável.

